segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Budismo socialmente comprometido



Simpósio sobre Budismo Ocidental socialmente comprometido - de 9 a 15 de Agosto de 2010, na sede dos Zen Peacemakers, em Montagne, Estados Unidos (uma oportunidade de ir aos States:) Estarão presentes os pioneiros do Budismo Ocidental socialmente comprometido: Bernie Glassman, Paula Green, Joan Halifax, Jon Kabat-Zinn, Peter Matthiessen, Frank Ostaseski, Alan Senauke, Joanna Macy, e Gary Snyder mas também conta com presenças como Matthieu Ricard, Daniel Goleman.. Jeff Bridges e Richard Gere. Em homenagem a Robert Aitken e aos pioneiros deste movimento, o Simpósio visa promover a prática do Budismo Ocidental socialmente comprometido e inspirar os membros da comunidade a envolverem-se. Temas a abordar: serviço social, justiça social e activismo, resolução de conflitos,  cuidados compassivos, trabalho nas prisões, direito ecológico e activismo, empreendorismo social, saúde mental, terapias de bem-estar corpo-mente e arte para mudança social. Mais informações em Zen Peacemakers.

Para quem ficar pela Europa... de 7 a 11 de Junho, o retiro Bearing Witness em Auschwitz (mas é preciso decidir-se depressa porque está quase cheio!) 

domingo, 22 de Novembro de 2009

ainda sobre a compaixão


(recordando o ensinamento de Dalai Lama em Lisboa em 2007)

Habitualmente pensamos só em nós. Mesmo ao falar de amor, associamo-lo connosco - o "meu" amigo, a "minha" namorada. Desejar que todos os seres sejam felizes não surge por si só. Por isso temos de "trabalhar" primeiro connosco. Como desejar o fim do sofrimento para os outros se não começamos por nós? Quando se fala de sofrimento no contexto da compaixão, fala-se do sofrimento condicionado (que depende de causas), da experiência do prazer contaminado (e não da experiência primeira da dor propriamente dita). Portanto temos primeiro que identificar o sofrimento, o estado em que estamos, sob o domínio da ignorância e de emoções negativas. Geralmente não nos preocupamos em eliminar estas emoções conflituosas. Perturbam a nossa paz mental e a dos outros, mas deixamos que nos dirijam. Os nossos inimigos exteriores não são contudo os nossos verdadeiros inimigos, mas sim as nossas emoções conflituosas. No entanto está errado pensar que estas emoções nos sejam naturais ou que nos possam trazer algum benefício... Se a ira fosse a nossa natureza intrínseca, então estaríamos sempre irados. A verdadeira natureza da nossa mente é a claridade - as emoções negativas são distorções que podem ser vencidas, dispersas pela sabedoria.

Após gerar bodhicitta é necessário praticar um estado constante de consciência, de atenção completa e contínua. É necessário estar sempre consciente, pela introspecção e pela atenção. Para curar uma doença, tomamos remédios - da mesma forma, para eliminar as aflições, não basta ler sobre elas. O que nos leva às acções negativas é o pensamento. Por isso o budismo ocupa-se da transformação da mente, pois a mente é o motor da existência.

sábado, 21 de Novembro de 2009

Os visitantes



Uma das mensagens mais poderosas do Buda, é que o estado natural da mente é luminoso e puro. O sofrimento vem dos nossos “atormentadores” - estados como o medo, a culpa, a cólera, a cobiça. Quando os nossos atormentadores batem à porta e os convidamos a entrar, perdemos o contacto com o estado luminoso da mente. Se os acolhermos apenas como visitantes de passagem, e não nos identificarmos com eles, vamos ter consciência que não reflectem o que realmente somos. O nosso desafio é vê-los como são e lembrar a nossa verdadeira natureza.

Frequentemente, há este sentimento de que não somos suficientemente bons, de que temos de mudar, ser melhores. O que implicitamente significa que não queremos ser quem somos, que não nos aceitamos. Ou aceitamos umas partes, as que achamos mais simpáticas ou mais corajosas e lutamos incessantemente contra as outras. E, contudo, seja o que for que sejamos, é com isso e através disso que estamos aqui, é essa a matéria-prima do nosso caminho espiritual. O caminho começa aqui mesmo onde estamos, tal como somos, com a nossa mistura de confusão e sabedoria. A prática da meditação é o primeiro acto que fazemos para parar a agitação, a confusão, os julgamentos. Mas não é uma varinha mágica. Aliás, frequentemente, como vamos estar mais atentos, vamos dar-nos conta de até que ponto estamos agitados. E aí a meditação fará parte de tudo. Não é apenas o momento em que nos sentamos numa almofada, e que acaba no momento em que nos levantamos da almofada. A meditação é uma experiência viva, que integra tudo o que somos e, essa percepção, temos de trazê-la para a nossa vida de todos os dias. Os fenómenos, quer surjam sob a forma de sensações visuais, auditivas, olfactivas, tácteis, quer sob a forma de sentimentos, emoções, acontecimentos exteriores ou interiores, quando vividos com consciência, são um instrumento de libertação. São a nossa oportunidade de acordar.


"Durante muito tempo na minha prática de meditação ficava embaraçado e envergonhado ao ver na minha mente estados de mente prejudiciais, estados como orgulho ou ciúme, má vontade ou egoísmo; e em vez de os examinar e trabalhar liberto deles, fazia julgamentos sobre mim próprio e cavava ainda mais fundo o buraco em que me encontrava. Ou sentir-me-ia julgado e infeliz quando os meus professores ou outras pessoas apontavam estes estados mentais desarmoniosos. Mas depois de anos de prática, acabo por me sentir agradecido quando observo o surgimento de um desses estados negativos, porque agora mais facilmente os vejo. Torna-se mais uma oportunidade de me desprender desses padrões, de ver a sua transparência essencial, e por me soltar do fardo que representam." (Joseph Goldstein)

Uma gota de água



No século XIX, quando Gisan Zenrai Zenji se tornou abade de Sogenji, muitos monges se juntaram no mosteiro para estudar, por vezes mais de cem. Entre eles havia um chamado Giboku Zenji. Giboku tinha dezanove anos, idade suficiente para acreditar que sabia fazer bem as coisas. Um dia ele estava a preparar o banho para o mestre Gisan. A água do banho estava demasiado quente, e ele foi buscar baldes de água do poço para a arrefecer. Quando já estava quase a ficar suficientemente fria, ele pousou o último balde, com algumas gotas no fundo. Antes de ir buscar mais água, deitou no chão essas últimas gotas. Como ia buscar mais, provavelmente pensou que essas não seriam necessárias. Gisan Zenrai Zenji observava o que ele fazia e perguntou-lhe:

"O que é que acabaste de fazer?"

"Fui buscar mais água"

"E antes de carregar a água, o que fizeste?"

"Deitei fora a que restava"

"Se treinares com uma mente assim, não importa quanto treino faças, ou durante quanto tempo, não vais despertar. Aquelas gotas de água, se as deitas fora, qual será a utilidade? Se as levares para o jardim e com elas regares algumas plantas, então as plantas darão vida, e a água também terá dado vida. Se com elas regares os pepinos, então os pepinos ficarão satisfeitos, e a água também."

Quem toma votos tem uma responsabilidade para com a vida, mas isso não pode ser feito com tanta falta de atenção. Giboku pensava que já percebia tudo. Ao ser reprendido, percebeu que podia aprender muito com uma gota de água. Tomou o nome de Tekisui Zenji, "Uma Gota de Água Zenji".

Escreveu este poema antes de morrer:

Uma gota de água de Sogen,
Durante setenta e quatro anos
foi usada, nunca esgotada,
Nos céus e na terra.

"Enlightenment is like the moon reflected on the water. The moon does not get wet, nor is the water broken. Although its light is wide and great, the moon is reflected even in a puddle an inch wide. The whole moon and the entire sky are reflected in dewdrops on the grass, or even in one drop of water." A Iluminação é como a lua reflectida na água. A lua não se molha, nem a água é perturbada. Embora a sua luz seja vasta, a lua reflecte-se até mesmo no charco mais minúsculo. Toda a lua e todo o céu se reflectem em gotas de orvalho na erva ou numa única gota de água. (Dogen)
A história "one drop": Sogen's One Drop

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

A troca

No dia 12 de Novembro foi lançada a Carta pela Compaixão e tem havido desde esse dia centenas de iniciativas por todo o planeta relacionadas com este tema. É solicitado às pessoas que assinem a carta, ao lado de pessoas como o Dalai Lama, a Rainha Rania, Peter Gabriel, Arcebispo Desmond Tutu, Isabel Allende entre tantos outros. Uma das ideias desta Carta é que é necessário passar à acção e não nos ficarmos unicamente pelas palavras.

Na próxima sessão do Núcleo de Estudo do Dharma de Leiria faremos uma abordagem ao tema da compaixão, reservando para a segunda parte da sessão a prática de tonglen ou “a troca”, de acordo com a tradição budista. Como diz Pema Chodron: “A prática de tonglen reverte a lógica habitual de evitar o sofrimento e buscar o prazer. Nesse processo, nós nos libertamos de padrões muito antigos de egoísmo. Começamos a sentir amor, tanto por nós mesmos quanto pelos demais; passamos a cuidar de nós mesmos e dos outros. Tonglen desperta nossa compaixão e nos faz conhecer uma visão muito mais ampla da realidade.”

Noutro site encontra-se uma reflexão bem actual em que se aplicam estes princípios, denominada a sabedoria do espelho retrovisor, que vale a pena ler. Temos que efectuar constantemente esta troca de papéis, colocando-nos no lugar do outro e assim sentirmos o poder da compaixão. Para celebrar este evento, o site TED associou-se publicando uma série de seis vídeos sobre o tema da compaixão. Estes vídeos, em inglês, abordam seis diferentes perspectivas sobre este tema, de acordo com diferentes crenças. Poderão ser um bom ponto de partida para praticar a compaixão no nosso dia-a-dia, em termos práticos.

E como estamos num blog de budismo ocidental, não podia deixar de introduzir uma inovação ocidental à prática de tonglen... a comercialização de t-shirts, como se pode verificar AQUI



Basta escolher o modelo de t-shirt que se preferir!...

a grande via não é difícil...



Há uma espressão Chan famosa, geralmente traduzida por "o grande caminho não é difícil para os que não têm preferências," (the great way is not difficult if you don't pick and choose). E porque continuamos sempre a fazer distinções e a criar separações... bom, então é muito difícil. Há uma história que ilustra bem esta frase (aqui numa versão brasileira):


Hakuin era louvado por seus vizinhos como vivendo uma vida pura. Uma bela garota japonesa cujos pais tinham uma mercearia morava perto dele. Repentinamente, sem qualquer aviso, seus pais descobriram que ela estava grávida. Eles ficaram muito bravos. Ela não queria confessar quem era o pai mas, após muito pressionarem, acabou dizendo que Hakuin era o pai.
Muito bravos os pais foram ao mestre. "É mesmo?" era tudo o que ele dizia.
Após o nascimento da criança ela foi levada a Hakuin. Ele havia perdido sua reputação devido ao incidente, o que não o incomodava, mas ele cuidou muito bem da criança. Ele obteve leite de seus vizinhos e tudo o mais que ele precisava. Após um ano a jovem mãe não conseguiu mais aguentar. Contou a verdade a seus pais - o verdadeiro pai era um pescador que trabalhava no mercado de peixe.
A mãe e o pai da garota imediatamente foram ver Hakuin para pedir perdão, desculpar-se longamente, e pegar a criança de volta.
Hakuin aceitou. Ao devolver a criança tudo o que disse foi: "É mesmo?"

Isto equivale a aceitar o que nos está a ser oferecido, ou a ser negado, e, frequentemente, quanto mais resistimos mais sofremos. Talvez uma das dificuldades para nós ocidentais resida também  no nosso sentido de justiça. Tantas vezes, pensamos, não é justo, não deveria ser assim. E depois, onde colocar uma fronteira entre aquilo que é realmente inaceitável e pelo que tem de valer a pena lutar e esbracejar, e aquilo que "é apenas assim" e quanto mais nos opomos mais nos afundamos no nosso próprio esbracejar? Podem ser coisas bem simples e muito correntes: uma doença que nos ameaça, uma relação que se deteriora, um superior que consideramos incompetente - vamos aceitar a situação com "resignação", sentido de humor ou batendo a porta? Levantamos os braços ou baixamos os braços? É que mesmo quando as coisas "teoricamente" podem ser claras, no dia-a-dia torna-se tudo mais desfocado. E há esta coisa a que chamamos eu, sempre a cogitar e a reclamar. E que diz "eu, eu, eu..."

Dúvida



"Grande dúvida, grande iluminação.
Pequena dúvida, pequena iluminação.
Nenhuma dúvida, nenhuma iluminação."

Expressão Chan (Zen chinês)

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Li isto hoje

No blog de sensei Amy Hollowell:
Bernie Glassman says: "Seeing notions for what they are, use them as devices; don't be used by them."
(qualquer coisa como: "ao ver as noções pelo que elas são, usa-as como dispositivos; não te deixes usar por elas"

Por que estamos tão longe do Despertar?

Dilgo Khyentse Rinpoche explica por que razão estamos tão longe do Despertar:

O apego e a aversão são as verdadeiras causas do nosso errar contínuo no samsara. Como chegamos a esse ponto? Antes de mais tivemos um pensamento individualista. No seguimento desse pensamento desenvolveram-se todo o tipo de noções, tais como «o meu corpo», «o meu espírito», «o meu nome», e por aí adiante. Depois formou-se o pensamento do «outro». À força de considerar que alguns desses «outros» eram agradáveis ou benéficos, nasceram sentimentos de apego e de desejo e, inversamente, sentimentos de aversão de de ódio face aos que julgámos desagradáveis ou nocivos para esse «eu». Somos incapazes de alcançar a Iluminação, dado que somos prisioneiros dos ciclos incessantes de atracção-repulsão.

Pema Wangyal Rinpoche, Diamantes de Sabedoria, 2002, Âncora Editora, Lisboa, p.67